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Pedro Azevedo

O mundo em desencanto

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Enquanto programador de uma sala de cinema pública no estado do Ceará, pude exibir quase todos os longas que compõem essa programação ao longo dos últimos oito anos, tendo tido também a oportunidade de mediar debates entre os seus realizadores e o público. O critério inicial para estabelecer esse recorte foi, portanto, territorial. Tratei de mergulhar na produção nordestina e cearense da década de 2010, entendendo que uma parte bastante expressiva da cinematografia brasileira contemporânea que vem ganhando cada vez mais espaço de exibição e debate no circuito de festivais nacionais e internacionais, além de infiltrar-se progressivamente no circuito exibidor de salas comerciais, vem exatamente dessa porção do Brasil. Não se trata, contudo, de reafirmar a força do cinema produzido no nordeste como um gesto esvaziado de sentido, fadado à esterilidade da boa intenção (e aqui vale a pena retomar a provocação de Yuri Firmeza reverberada recentemente pela exposição “À Nordeste”, quando questiona o leitor/espectador com um disparo certeiro: a nordeste de quê?), mas de propor uma via livre de acesso a filmes de artistas nordestinos que, quando pensados >> exibidos >> assistidos em conjunto, possam traduzir uma série de ideias complexas sobre questões que atravessam e transcendem a experiência de ser nordestino num Brasil cujas fronteiras apontam para a formação de um estado-nação que se desenha como ficção pura. A obra do artista visual cearense Clébson Francisco intitulada “Independência e Morte” (2019) abre espaço para reflexão acerca dessa dimensão fractal das fronteiras constituídas e assimiladas no imaginário do brasileiro médio (e do estrangeiro também) a fórceps pela nossa história autoritária, genocida e racista. 

O que proponho aqui é um olhar bastante pessoal para um conjunto de filmes de longa-metragem de ficção nordestinos que, de alguma forma, testemunharam ou atestaram a experiência social apocalíptica do Brasil na última década – que começa, vale recordar, com o primeiro mandato de Dilma Rousseff, passando pela polarização PT vs. PSDB nas eleições de 2014, culminando no golpe de estado que a destituiu da presidência em 2016, o que nos conduziu aos governos golpista de Michel Temer e genocida de Jair Bolsonaro. Os filmes exibidos aqui gestam na (re)construção de um imaginário de ruínas representadas por dentro e por fora dos limites dos seus respectivos quadros fotográficos, encarando as ideias da distopia e da fantasia como disparadoras da criação de universos totalmente ficcionais. Penso que esses cinco longas funcionam, juntos, como um bloco cujas interseções vão desde a liberdade total de experimentação de linguagem dos seus agentes, a emancipação política dos corpos dissidentes, um olhar sensível para a livre manifestação da sexualidade e dos desejos, a formação da cidade e do espaço público (e privado) enquanto campo minado, a tentativa de imprimir um revisionismo da história oficial, reimaginando o passado e constituindo novos presentes/futuros, a adesão mais ou menos explícita ao cinema de gênero, a musicalidade, as cores e texturas como mediadoras de sensorialidades hipnóticas – enfim, um conjunto bastante heterogêneo de forças que se apresentam e se repetem de forma consistente em todos os filmes.

 

A prática da pesquisa e da revisão criteriosa acompanha qualquer trabalho sério de curadoria nas artes, mas há qualquer coisa no campo da intuição que rasga esse processo de racionalidade pura e se impõe também como impulsão/propulsão no ato de montagem dessas programações. Nesse sentido, as conexões que encontro, ato contínuo, entre A Seita (2015), Inferninho (2018), Medo do Escuro (2014), Canto dos Ossos (2020) e Sol Alegria (2018) vêm primeiramente de uma intuição localizada no âmbito da sensibilidade, partindo depois para o gesto elucidativo que busca interpretar, reconhecer e atribuir sentido. Esse parênteses, para além de ter tudo a ver com o que penso e defendo sobre processos criativos na curadoria, diz muito, outrossim, sobre os filmes aqui exibidos, que se apresentam ao espectador como experiências sobretudo sensoriais, de contatos imediatos que se dão muito mais no campo das formas sensíveis do que dos códigos inequivocamente interpretáveis. A materialidade desse olhar curatorial se constitui e se afirma, na prática, a partir do momento em que não estando apenas ilustrados numa lista enciclopédica ou enunciados num texto, o corpo de filmes exibidos nesta mostra media experiências sensíveis e encontros que buscam ultrapassar um certo sentido de assimilação unilateral por parte do espectador, desejando, ao contrário, abrir-se para uma interface plural de recepções e compreensões sobre cada obra em particular; cada bloco de cinco filmes enquanto conjunto coeso e sobre a produção da década de forma geral.

 

Um traço forte presente em todos esses títulos é o do esforço criativo em torno da colaboração e do livre intercâmbio entre os seus realizadores, estejam eles reunidos formalmente ao redor de um coletivo ou trabalhando em duplas. Parte dos membros da antiga Alumbramento constituem hoje a Marrevolto, que produziu Inferninho. O realizador de Medo do Escuro, Ivo Lopes (membro fundador da mesma Alumbramento), é também o fotógrafo de Sol Alegria, dirigido pela dupla Tavinho e Mariah Teixeira. O diretor André Antônio é parte do coletivo Surto & Deslumbramento, cujo nome vêm de uma ironia do já citado grupo cearense, e o longa Canto dos Ossos é resultado de um trabalho coletivo encabeçado por Jorge Polo e Petrus de Bairros. Esse exercício da realização coletiva está inserido também, é claro, na esteira de uma série de fatos políticos que possibilitaram que obras como essas pudessem ser realizadas no Brasil durante os anos 2010, com a manutenção de políticas públicas de fomento à produção e difusão do audiovisual e o fortalecimento de espaços de formação dentro e fora do circuito universitário, como é o caso das escolas públicas Vila das Artes e Porto Iracema das Artes em Fortaleza.

 

O título desse ciclo, O mundo em desencanto, surge a partir de uma sensação geral de distopia, fantasia ou fim do mundo traduzida por esse conjunto de longas, ainda que de forma alguma eu os categorize como pessimistas ou desencantados diante dos cenários políticos nos quais emergem; muito pelo contrário. As ruínas de Recife em A Seita e os seus personagens flaneurs que caminham dispersos pela noite, sedentos pelo encontro, me remetem imediatamente a uma Fortaleza ainda mais arruinada em Medo do Escuro. Nos dois filmes, a atenção à singularidade da performance, a composição minuciosa do trabalho de arte, figurino e maquiagem, além da musicalidade enquanto fio condutor de percepções agudas parecem transbordar num movimento que irradia da tela para a dimensão háptica do espectador; sensação que também rasga e atravessa Inferninho, Sol Alegria e Canto dos Ossos em estado de desencantamento puro. A experiência de deslocar Medo do Escuro do seu desejo artístico inicial, que é o de ser um filme-evento (o que muito me remete a uma certa ideia de “cinema de atrações” conforme descrita por Thomas Elsaesser), com trilha sonora executada ao vivo, parece ser também um dos gestos mais radicais propostos por essa mostra, o que resultará, na prática, numa nova modalidade de fruição do filme, viabilizada pela adoção do formato da exibição online e potencializada pelo contexto de hiper-exposição às telas que nos acomete nesse momento restritivo da pandemia mundial de covid-19, que além de adoecer e matar os corpos, aturde os sentidos.

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Frames de A seita  Medo do Escuro  respectivamente

O caráter quase escultórico das imagens de A Seita e de Medo do Escuro, quando posicionam os corpos dos seus personagens e as paisagens arruinadas como topografias icônicas a serem percorridas, convocam o toque do espectador a todo instante, ainda que esse toque seja virtualmente impossível, já que não se tratam de esculturas. Seriam anti-esculturas então? O mundo em desencanto desses dois filmes poderia guardar algum paralelo com o universo de horror dos jovens vampiros em Canto dos Ossos? Ou do microcosmo do bar-refúgio em Inferninho, cujo mundo externo se apresenta tanto como uma ameaça (da demolição da especulação imobiliária) quanto como um vasto desconhecido a ser explorado (os cartões postais das maravilhas do mundo antigo e moderno)? A distopia do regime totalitário sobre o qual a falange revolucionária em Sol Alegria se insurge teria a ver com tudo isso também? Creio que em diferentes níveis de articulação, esses filmes podem entrar em acordos e desacordos ao passo que são assistidos em sequência.

           

Apresentar esse recorte de cinco filmes não implica, naturalmente, em isolá-los ou deixar de pensar neles em articulação constante com um panorama de experiências nordestinas recentes no audiovisual que se avizinham de forma mais ou menos explícita, seja pelas coincidências que dizem respeito aos filmes em si, ou, novamente, pelo livre intercâmbio de realizadores e profissionais entre os projetos. Parece claro que um longa como A Misteriosa Morte de Pérola (2014), de Guto Parente e Ticiana Augusto Lima, abre uma série de caminhos para pensar na experimentação do gênero horror no âmbito do cinema cearense, o que poderíamos associar diretamente a Canto dos Ossos ou até mesmo a Inferninho, numa outra perspectiva, pensando na compactação dos espaços dramatúrgicos e nas locações únicas que impõem um rigor de mise-en-scène em ambos os filmes. Outro título cearense recente, Tremor Iê (2019), de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, também incorre de um gesto que re-atualiza questões da ficção científica distópica e apresenta um modelo de cidade sitiada/estado totalitário que poderíamos facilmente relacionar com A Seita, Medo do Escuro e Sol Alegria, seja pela radicalidade de propor uma reorganização da história oficial através de um revisionismo que busca obliterar a narrativa hegemônica patriarcal, ou pelo movimento de insurreição popular que busca a emancipação dos corpos dissidentes nos espaços comuns, reivindicados a todo momento. Essa imagem revolucionária é particularmente forte no filme de Tavinho e de Mariah Teixeira.

 

Os atravessamentos são infinitos, e no recorte desse texto, que se apresenta como ponto de partida possível para uma reflexão acerca da produção da década a partir de um olhar curatorial abertamente idiossincrático, poderia citar também O Último Trago (2016) ou Com os Punhos Cerrados (2014), títulos da mesma Alumbramento de Medo do Escuro,  fotografados pelo mesmo Ivo Lopes que emprestou o seu olhar de fotógrafo/realizador a tantos outros filmes marcantes dessa produção recente. Da mesma forma, seria possível aludir a Doce Amianto (2013), de Uirá dos Reis e Guto Parente, que também propõe um olhar sensível para a sexualidade e para o desejo a partir de um movimento de experimentação narrativa abertamente fabular.

 

Para não ficar restrito ao formato do longa-metragem nesse movimento de formação de vizinhança, partindo também da constatação óbvia de que a produção de curtas é substancialmente mais espessa do que a de longas nesse mesmo período histórico – e que a presente seleção se ateve apenas aos filmes de longa duração –, eu poderia finalizar citando os curtas Boca de Loba (2018), de Bárbara Cabeça, e Janaína Overdrive (2016), de Mozart Freire; filmes que apresentam modelos de cidade e de corpo bastante singulares nas suas aproximações com o cinema de gênero (a ficção científica distópica e o horror) e com a experimentação narrativa, reposicionando os impasses da formação do espaço urbano tanto na sua condição de local de deambulação, por um lado, quanto de sobrevivência dos corpos das mulheres LGBTQIA+, por outro. Tratam-se de experiências que, assim como o recorte que proponho ao materializar esse olhar curatorial numa mostra de cinco filmes, rasgam um certo sentido de temporalidade unidirecional e abrem-se para a especulação de outros presentes/futuros.

 

Enquanto escrevo esse texto, a notícia da demolição de um casarão histórico dos anos 30 em Fortaleza me remeteu instantaneamente ao apagamento da memória que percorre alguns dos filmes dessa lista. Essa constante intervenção arquitetônica que descaracteriza e destrói a paisagem das cidades não é exclusiva às capitais do nordeste, mas parece ter ganhado mais força por aqui nas últimas décadas, e o nosso cinema também é, em alguma medida, um pouco sobre isso. É o desencantamento do mundo afinal de contas. Essa mostra de filmes tem uma marcação clara no espaço e no tempo: ela acontecerá por um determinado número de dias e acabará. Os filmes, os textos e os debates, contudo, ficarão. Torço para que sirvam de arquivo tanto no que se refere a uma contribuição para o pensamento sobre o cinema brasileiro do passado/presente/futuro quanto sobre a prática curatorial enquanto exercício que coloca a história e a memória em movimento.